Já adianto que não sei responder a pergunta acima, mas acho que essa é uma das grandes verdadeiras questões de nosso tempo. Tolos são aqueles que consideram este um problema simples, que só falta tecnologia ou vontade política, e acham que dizer “desenvolvimento sustentável” quer dizer alguma coisa. Mas resolvi escrever esse post depois de ler a nota do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Xapuri (Acre), em resposta ao comentário da Marina Silva dizendo que Chico Mendes era elite.

Já adianto que não escrevo aqui para criticar a Marina, que é a bola da vez, mas sim para criticar a política (des)ambiental que vem desde Cabral, passando por Castelo Branco, Sarney, FHC, Lula, Marina e Dilma. E convenhamos, nesse quesito, nem as grandes potências têm o que dizer, pois querer conservar o mato dos outros investindo na própria industrialização é, na melhor das hipóteses, tentar garantir uma boa paisagem nas férias.

Seleciono alguns trechos da nota:

Chico foi um sindicalista e não ambientalista … Essa visão distorcida do Chico Mendes Ambientalista foi levada para o Brasil e a outros países como forma de desqualificar e descaracterizar a classe trabalhadora do campo e fortalecer a temática capitalista ambiental que surgia.”

“[não concordamos com] a atual política ambiental em curso no Brasil idealizada pela candidata Marina Silva enquanto Ministra do Meio Ambiente, refém de um modelo santuarista e de grandes Ong’s internacionais. Essa política prejudica a manutenção da cultura tradicional de manejo da floresta e a subsistência, e favorece empresários que, devido ao alto grau de burocratização, conseguem legalmente devastar, enquanto os habitantes das florestas cometem crimes ambientais.”

“os candidatos que compareceram ao debate estão claramente vinculados com o agronegócio e pouco preocupados com a Reforma Agrária e Conflitos Fundiários que se espalham pelo Brasil”

Você pode ler a nota toda nesse link do PSTU ou nesse do Globo, vai da sua preferência.


Rodrigo Travitzki, 18/08/2014

Na saleta do albergue, falando sobre educação:
- Hoje em dia as crianças não estudam, ficam o tempo todo no celular e perdendo tempo com coisas bobas, diz a moça enquanto dobra os lençóis
- É mesmo? E como era antes, pergunto.
- Ah, antigamente a gente era obrigado a estudar, não tinha esse negócio de “não vou fazer a lição”
- Que coisa.. e você gostava de estudar?
- Mmm, na verdade eu não estudava muito.. cê acha que se tivesse estudado estaria aqui dobrando lençóis?
- …
- Mas era diferente, a gente sabia que se não estudasse teria consequências, foi uma escolha errada que eu fiz

Moral da história: o tempo produz estranhos efeitos no cérebro


Rodrigo Travitzki, 31/07/2014

As últimas semanas não têm sido muito felizes para quem acompanha as principais notícias do Brasil e do Mundo. E em meio a grandes desastres misteriosos, massacres injustificáveis e alguns problemas em recursos básicos, às vezes perdemos de vista pequenas coisas que, na verdade, são muito maiores do que parecem.

Um apanhado de notícias “menores” me deixou preocupado. Estão relacionadas às transformações que as cidades vêm sofrendo. Tranformações que não favorecem a ninguém, apenas ao capital (e aos poucos que o possuem, de fato).

Uma notícia sobre “arquitetura hostil” diz que em Londres um único prédio com “espetos anti mendigo” se tornou alvo da opinião pública e, logo depois, os espetos foram tirados. Londres é uma cidade incrívelmente confortável aos seres humanos (human friendly), com diversas praças espalhadas pelos bairros, sistema de transporte incrivelmente eficiente, sistema de saúde para todos (você nem precisa de documento para ser atendido – como no Brasil, aliás, mas em Londres não são só os “pobres” que vão ao sistema público). Não se trata aqui de alimentar o “complexo de vira latas” ou de começar uma discussão do tipo “devolvam nosso ouro”, mas apenas de admirar algo belo, que existe, e que pode nos dar uma ideia de para onde caminhar.

É estranho notar que o paulistano, especificamete, tem avaliado mal uma administração pública que, embora de maneira ainda “rascunhada”, parece estar empenhada em tornar a cidade mais confortável aos seres humanos. Mas não quero “politizar” (leia-se partidarizar) uma discussão que é de todos.

Escrevo este post para chamar atenção a um triste movimento que vem acontecendo nas grandes cidades brasileiras, e que precisa ser combatido urgentemente. No Rio de janeiro, acabou de ser fechada a tradicional confeitaria Manon. Em São Paulo, estão quase fechando um tradicional espaço cultural, o Brincante. Para botar o que lá? Mais um prédio! Tudo que os paulistanos precisam – mais gente amontoada em pouco espaço e menos cultura.

Tudo porque estamos planejando as cidades para serem confortáveis ao capital, não aos seres humanos. Chamamos isso de especulação imobiliária. Alguns dizem que é uma bolha, mas ela não está dando sinais de que vá estourar. Não entendo de economia, urbanismo, mas não é preciso ser especialista ou gênio para se dar conta do óbvio. Se continuarmos nesse caminho, as coisas só vão piorar na brasiléia.

A questão do Brincante é muito séria (um quase trocadilho). Depois de duas décadas alugando o mesmo espaço, de repente Antônio Nóbrega e sua trupe recebem uma ação de despejo sem aviso prévio – sendo que as pessoas que alugam a casa têm, por lei, prioridade na compra e portanto devem ser avisadas.

Se casas culturais reconhecidas e tradicionais estão começando a fechar, o que será das pequenas iniciativas que fazem a efervescência da vida cultural da cidade uma referência para o país? O que será do cotidiano do paulistano? Ficar vendo filmes enlatados em shoppings murados comendo frituras caras e ruins? É essa cidade que queremos?

Se você quiser expressar publicamente sua opinião contra o fechamento do brincante, pode assinar essa petição, escrever algo, sair na rua, sei lá.

A cidade é para as pessoas, não para os consumidores!

#FicaBrincante   #MaisVerdeMenosCinza  #MaisArteMenosPrédio !


Rodrigo Travitzki, 02/06/2014

Tessitura, aprendi recentemente, é a abrangência de um instrumento musical, vai da nota mais grave que ele é capaz de emitir, até a mais aguda. O piano, por exemplo, tem uma ampla tessitura, abrangendo umas sete oitavas, enquanto a do violão não chega a quatro. A do Bobby McFerrin, ao que parece, é como a do piano.

Mas e se trocássemos as notas pelos comportamentos animais? Imagino que a tessitura de uma formiga não deve incluir muitas “oitavas de comportamento”, assim como de uma água viva. Um polvo ou um ornitorrinco, por outro lado, já devem ter uma variação maior nos tipos de comportamento que podem produzir. Aí surge, é claro, a pergunta: qual é a tessitura da espécie humana?

Bobby McFerrin e sua filha Madison, no Ibirapuera

Bobby McFerrin e sua filha Madison, no Ibirapuera

Ontem tive a oportunidade de presenciar o amplo espectro que compõe a tessitura humana. Show do Bobby McFerrin, mestre dos mestres na arte musical e, ao que parece, um excelente pai – como se deduz ao ver e ouvir os dois cantando lindamente Jorge Ben e outras milongas. No palco, Bobby e sua banda nos mostravam os limites sem limites de nossa espécie, as notas mais altas que somos capazes de produzir, singularidades de beleza a dar inveja aos deuses. Ao mesmo tempo, outros representantes do Homo sapiens não nos permitiam esquecer do neandertal que habita cada um de nós.

Três infelizes elementos da espécie teimavam em ficar de pé enquanto todos os outros já estavam sentados, mesmo depois do microfone explicar que a regra do local era ficar sentado. Pessoas gritavam “senta, senta”, neandertais apelavam “senta, FDP”. Os três infelizes desdenhavam da massa, fazendo ameaças e cara de mau. Não tardou a alguém ir em direção a eles, a principio de forma “pacífica” (creio eu), mas logo veio a barbárie. O sujeito que chegou aplicou uma gravata em um dos infelizes, não sei bem porque, ao mesmo tempo em que algumas pessoas começavam a levantar sem cara de boas intenções. Um dos três começa a socar o sujeito que dava a gravata, enquanto a multidão gritava seus “uga bugas” ao redor da confusão.

Bom, certamente essa não é a nota mais baixa capaz de ser emitida pela espécie humana, até porque no final a própria multidão tratou de acalmar a si mesma, e depois de minutos estavam todos assistindo ao show tranquilamente. Mas pra mim foi um momento emocionalmente intenso, não apenas por sentir a proximidade da violência física e a agressividade cega da massa, mas também pelo contraste. Pelo contraste entre o sublime, o divino que estava logo ali no palco, e o grotesco, a violência gratuita, tanto do indivíduo quanto do coletivo. Quando terminou, entrei em prantos sem saber muito porque, mas agora sei o que foi: tive uma experiência concreta da tessitura do Homo sapiens, da nossa incrível capacidade de sermos divinos e grotescos.

Depois do show, ficamos discutindo quem estava certo, se eram todos igualmente idiotas ou se havia graus de idiotice, se seria melhor ter deixado os três em pé, se era uma questão de direitos individuais ou coletivos, enfim… perdemos um bom tempo tentando digerir as notas mais baixas da espécie, e só depois me dei conta de que havia presenciado o mais belo show de música da minha vida, sentado na grama na companhia dos amigos.

Em tempos acalorados como os que vivemos agora, em que o mundo se volta para o Brasil, em que multidões vão às ruas, eleições chegando, debates políticos transformados em fofoca de cumadre, em que “justiceiros” e linchamentos se multiplicam, é preciso que a gente se lembre não apenas de quem somos, mas de quem podemos ser, de quem queremos ser. É preciso escolher em qual faixa da tessitura humana existiremos em nossos gestos cotidianos.


Rodrigo Travitzki, 11/05/2014

O vídeo abaixo explica o processo (em inglês) e há mais detalhes escritos no próprio youtube (na descrição do vídeo). Parece incrível, mas o segredo é utilizar um smartfone e a lente de um daqueles aparelhos de laser para apresentações. Salve a gambiarra!


Rodrigo Travitzki, 31/03/2014

… e muitos anos de vida…

Lamentável.

Não vou nem comentar o povo que foi tentar refazer a marcha sem família, sem deus e sei lá o que, assim como não se comenta os passos das formigas pela cozinha.

Mas é triste ver que, embora a grande maioria dos brasileiros esteja hoje comemorando o fim da ditadura ou rememorando seus ápices de crueldade, o país ainda continua militar demais para uma democracia.

Vejamos um triste apanhado geral de fatos recentes:

“um Juiz autorizou que a polícia civil invada e reviste TODAS as casas do Parque União e da Nova Holanda, duas das mais importantes áreas da Maré.” leia mais

Corregedoria aponta indício de abuso da policia em acao no pinheirinho

Em Goiás, dez escolas públicas serão administradas pela Polícia Militar

Países da ONU recomendam fim da Polícia Militar no Brasil

PM ataca participantes de blocos em Campinas

Para secretário de Segurança do Estado [SP], repressão na Cracolândia ajuda o programa Braços Abertos

Viatura da PM arrasta mulher por rua da zona norte do rio

A banalidade do mal: cadê o Amarildo?

Policia usa bala de borracha e spray para acabar com rolezinho em shopping

PM vai mapear Metrô de S. Paulo para reprimir revolta da população

Levantamento de mortos e feridos graves nos últimos protestos

Sarney tem até uma cidade com seu nome!

Na América Latina, só Brasil ainda não teve Comissão da Verdade (notícia de 2011)

 Melhor parar por aqui, porque a lista é longa.

Os inimigos da democracia e da liberdade são muitos, mas há quem, como eu, priorize dois deles no Brasil de hoje. Porque sem isso o resto não vai. A força e a Lei. Eles detém o monopólio da violência e da justiça. Juntos, poderiam transformar toda essa merda. Juntos, podem afundar ainda mais nossa frágil democracia na lama da ignorância, do totalitarismo, da vida sem sentido.

Lembro de meu espanto quando vi, em Barcelona, um policial convencendo (usando palavras e com as mãos pra trás!) um mendigo a não ficar deitado no banco da praça. Sei que essa mesma polícia também é violenta em muitos momentos, mas a diferença é gritante. Eu poderia selecionar aqui alguns dados pra demonstrar essa ideia, mas sinceramente estou tão triste com a situação que não quero me afundar mais nela. Quem quiser se informar melhor, desligue a televisão e procure no google. Escrevo aqui no blog porque preciso desabafar um pouco, e acho que essa indignação precisa ser pública.

brasil-sitiado-pela-policiaOs últimos acontecimentos nas ruas têm mostrado sistematicamente, para quem achava que estava no fundo do poço, que o poço não tem fundo. É triste, mas está bem diante de nossos olhos. Não é questão de governo, não é questão de partido. Precisamos democratizar nossas instituições, ainda tão arraigadas em séculos de opressão e desigualdade, ainda tão arraigadas na ditadura que nem  esfriou, que mal foi reconhecida oficialmente.

Não basta desmilitarizar a polícia, isso é pouco. É preciso democratizar mesmo, torná-la uma ferramenta a serviço da democracia, não dos governos. Não sou especialista, mas isso fica cada vez mais óbvio a cada manifestação que vou e que não vou, mas acompanho pelas redes sociais.

Nossa luta não é contra a polícia, é contra a perversão das instituições a serviço dos tubarões.

Aos bons policiais e aos bons juízes, a estes vai minha oração de hoje. Porque eles talvez sejam os mais capacitados a levar adiante essa mudança necessária, se todos nós mostrarmos nossa indignação publicamente.

A rua é nossa!


Rodrigo Travitzki, 04/02/2014

Essa parece estar se tornando a regra nas pistas de alta velocidade da informação: se gostou do título, compartilhe logo antes que esfrie o assunto. Depois, quando muito, dá uma lidinha só pra poder discutir com os amigos sobre os memes do momento.

Eu mesmo cometi este lapso recentemente, compartilhando uma imagem de um pôr do sol na China, supostamente um substituto oficial ao cenário real num país tomado pela poluição, mas que na verdade era só uma propaganda. Caí como um pato e só fui resgatado quando meu amigo Tibúrcio enviou um link explicando o boato. Bom, não foi tão ruim assim, até porque a revista época também caiu no engôdo, e eles têm (ou deveriam ter) pessoas que recebem salários pra evitar esse tipo de desinformação, ao contrário de nós, meros usuários compulsivos de informação.

Mas esses dias me deparei com um dos mais bizarros exemplos de desinformação que já presenciei nas redes sociais. Um amigo havia compartilhado o texto de um sujeito que supostamente traduziu uma matéria alemã que falava mal da Dilma. Colo a imagem abaixo, para a posteridade, mas o post pode ser encontrado aqui.

Achei que, embora pudesse ser verdade, não estava muito de acordo com o pouco que já tinha lido sobre o assunto. Como dispunha de tempo, esse bem tão precioso, resolvi checar a fonte. Não foi difícil. Segui o link do próprio post do sujeito, que dava num texto em Alemão. Poderia ter parado por aí, mas resolvi pedir uma ajuda ao google translator. Pensei que poderia encontrar uma ou outra distorção ou exagero, mas, pasmem, não havia uma única linha semelhante entre o post do sujeito e a reportagem alemã, que inclusive era de 2012. Fiquei abismado com a cara de pau do sujeito e com a capacidade das pessoas em compartilhar o que não sabem (no momento, são 33 mil compartilhamentos, e duvido que 1% deles seja crítico). meme-tosco2Na verdade, bastava ler um comentário no próprio post para, no mínimo, desconfiar do conteúdo.

Resolvi escrever esse post para lembrar que estamos em plena guerra da informação. E nessa guerra, a principal arma é a desinformação, muitas vezes mais verossímil do que a verdade. Cuidados redobrados são necessários nesse ano, porque os ânimos estão aflorados e os desinformadores são bastante criativos. Sua principal munição é a ignorância, a falta de tempo, o desejo de que certa informação esteja correta.

Por curiosidade, fui ver quem é o sujeito, e encontrei um obsessivo por informações reacionárias no facebook. Você pode conferir aqui no perfil dele, mas acho que nem vale a pena perder tempo com isso. Eu, que já perdi um pouco do meu, deixo aqui apenas algumas notas. O senhor Marlon Boone, que curtiu páginas como “Dom Bertrand de Orleans e Bragança” e “Bunker cultural”, por vezes tece livres associações entre opção sexual e opção política.

memetosco-coments

Não sei se chamo meu sentimento de tristeza, raiva ou vergonha alheia.

E não deixa de ser incrível perceber que esse é mais um daqueles sujeitos que reclama da ignorância do povo, supostamente responsável pela corrupção dos políticos (como se as elites e o judiciário não tivessem nada com isso).

memetosco-comentss

Tanta certeza ele tem de que o povo é ignorante, que compartilha (para seus amigos, é bom lembrar) informações escandalosamente falsas, que qualquer idiota (com tempo e google translator) pode desmarcarar. No caso, eu.


Rodrigo Travitzki, 28/01/2014

Vale a pena ver esse vídeo mostrando o reencontro de dois elefantes após duas décadas separados.


Rodrigo Travitzki, 30/08/2013

O excelentíssimo Donadon está nos dando uma verdadeira lição de política brasileira. Sua didática é impecável.

“Preso há mais de dois meses, o deputado Natan Donadon (sem partido-RO) escapou nessa quarta-feira, 28, da cassação pela Câmara dos Deputados.” EstadãoO deputado presidiário

O episódio nos ajuda a entender, de forma clara e cristalina, a necessidade de transparência na informação pública, no caso, o voto dos “representantes” do “povo”.

A esquerda, a direita e a diagonal se encontrarão nesta esquina geodésica da vassalagem – seja como causa, seja como efeito.

Eis uma aberração. Eis uma oportunidade.